sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Cadê a coerência?

Não dá, eu tento mas não entra na minha cabeça.

É aquela coisa, as pessoas passam a vida se queixando do país, das pessoas que nele residem, falam mal dos políticos, dos eleitores, da saúde doente, da educação escassa, da segurança inexistente. Reclamam dos costumes, das mídias, da péssima cultura popular atual. Repudiam o Big Brother, o Faustão, o Michel Teló e a Luíza, que estava no Canadá. Quantas vezes por dia não ouvimos e dizemos algo como "Esse tipo de coisa só acontece no Brasil" ou "Tinha que ser brasileiro, mesmo"? Mas aí é só chegar a Copa do Mundo para que todos esses incômodos sejam deixados de lado. Vamos torcer juntos para o melhor país do universo! Aquele do povo alegre e raçudo, que de tanto que sofre merece a alegria de vencer! Brasil, Brasil!

E isso não é de agora, vocês sabem. Mas hoje, vejo essa mesma incoerência transferida para um outro assunto: a profissão.

Todo ex-colega de faculdade, todo profissional da área conhecido, todo ex-estagiário atualmente já farmacêutico formado que eu encontro, só tem queixas a me fazer. Porque a realidade do profissional farmacêutico é difícil; porque se trabalha muito e se ganha pouco; porque toda a ética que se aprende na faculdade deve ser jogada no lixo para se sobreviver na profissão; porque a área da saúde é complicada de se trabalhar, há muita briga de egos entre diferentes profissões e até mesmo dentro de uma mesma, a nossa categoria não é unida, não é reconhecida, não é respeitada, não há multidisciplinaridade real e no final das contas acabamos todos tendo que obedecer aos médicos, os únicos verdadeiramente deuses neste nosso olimpo. Mas... Só um pouquinho... Que dia é hoje? 20 de janeiro? FELIZ DIA DO FARMACÊUTICO!!!

No facebook é uma enxurrada de mensagens das mais diversas... Todas muito bonitas, comparando farmacêutico com ourives e sei lá mais o que, falando do quão maravilhosa e edificante é essa profissão que escolhemos e de como somos abençoados por levarmos esse título. Mas peraí, e toda aquela frustração anterior? Ah, hoje não conta, hoje tudo são flores, é isso? Pois me irrito! Me irrito profundamente!

Ah, vão dizer, estou até vendo, mas quando a gente faz o que ama, sente orgulho, apesar dos percalços.

Primeiro que pra  eu sentir orgulho de algo que eu faça, tenho que respeitar a minha consciência moral e a ética profissional aprendida na faculdade. Qual o quê! Se pra trabalhar como farmacêutico no Brasil, ganhando o piso e às vezes nem isso, a gente tem que ignorar tudo aquilo que sabe como certo, esquecer o juramento feito durante a solenidade de formatura e nos tornarmos vendedores? Sim, vendedores. Farmácia é um comércio. Os que ali entram querendo medicações não são mais pacientes, são clientes cujo dinheiro devemos desejar muito mais do que curar sua enfermidade.

Segundo que eu não acredito em trabalhar no que se ama. Acredito sim em trabalhar  no que se gosta, mas amor... Hum... O amor não é tão incondicional quanto dizem. O amor tem suas razões de existir, às vezes até surge de forma gratuita, mas se não há um propósito, um porquê, some com o tempo. Uma vez minha mãe me perguntou se eu não gostaria de ter uma profissão que envolvesse escrever, e eu respondi: "Não, mãe, escrever é um dos meus amores. Jamais estragaria tudo fazendo da escrita minha profissão". É por aí!

Antes que me xinguem, que me amarrem num tronco de árvore e me chicoteiem, eu não sou a dona da verdade. Digo aqui que não acredito em fazer o que se ama porque é o que eu observo na realidade que me cerca. Da mesma forma como não acredito em amor eterno. Mas quem sou eu pra duvidar se alguém aparecer por aqui levantando qualquer destas bandeiras? Se for este o caso, me calo com minha inveja.

Ainda assim, me revolta a hipocrisia. Porque quem ama a profissão, não passa 24h por dia reclamando e apontando cada aspecto ruim dela. Quem ama reconhece, enfrenta e supera dificuldades, mas se atém ás coisas boas, àquilo que é o motivo deste amor existir. Talvez haja farmacêuticos assim no mundo. Não estou questionando isso. Tudo que eu peço é que se decidam e sejam SEMPRE coerentes com aquilo que realmente pensam e sentem.

5 Comments:

CIGANO LUZ said...

Contundente, passional, realista...

Você foi perfeita em sua explanação, Querida Larissa!

Realmente, as incoerências se tornaram lugar-comum há muito tempo. O clássico exemplo de seu manifesto, para ser sucinto, é que o morto sempre foi um santo...

Somos seres pontuais, de personalidade indefinida e caráter duvidoso quando se trata de uma análise mais crítica e imparcial. Raros são os casos de pessoas com princípios e diretrizes imutáveis ao longo de sua jornada. Não que devamos cristalizar, mas todos precisam de bases sólidas para postar suas armações.

A volubilidade do indivíduo é nauseante, pois percebemos que tudo se molda de acordo com o interesse imediato e não com a avaliação do certo ou errado.

Sinto que em seu mètier seja assim, mas, se serve de consolo, afora os raros casos de sindicalismo atuante (também cheio de interesses), os demais campos profissionais passam pela mesma incongruência e descaramento comportamental.

Mesmo assim, registro aqui meu cumprimento pelo dia de ontem e parabenizo-a não por ser farmacêutica, mas por ser Profissional e responsável.

Um beijo em seu coração, Anjo!

Mary Miranda said...

Lari, querida amiga!

Seu post é um daqueles que temos que ler mais de uma vez para conectar toda a grande sabedoria que encerra!
Muitas temáticas que me atraíram: patriotismo interesseiro, amor à profissão, amor eterno, hipocrisia, comemoração...
Se eu conseguir sintetizar minhas ideias, direi que, patriota hipócrita nunca fui (torço na Copa, mas também torço em todas as vertentes do Brasil; canto Hino Nacional por amor e a qualquer momento!!!!).
Morra de inveja: acredito em amor eterno! Sou dessas sonhadoras, na vida, na arte e em relacionamentos!
O amor é minha base, é o meu entender de mundo. Não consigo viver sem amor, e não me entenderia ser professora sem amar minha profissão, assim como não me entenderia escrever sem amor... E vamos lá, minha amiga, que não sou tão utópica assim: acredito que dá para escrever e ganhar muito dinheiro! Como? Sei lá! Perguntemos ao Paulo Coelho ou à J.K. Rowling! (rsrs).
Nunca reclamei mais da minha profissão do que a elogiei. Sou professora e não fui enganada: sabia de TODOS OS PROBLEMAS de minha atividade docente!
Os babacas que falam mal de suas atividades, não estagiaram? Será que são todos umas criancinhas inocentes que foram enroladas pelo "Lobo Mau" e desconheciam os "martírios" profissionais aos quais estavam predispostos ao se formarem? (Desculpe a linha irônica, mas senti vontade de desabafar...)
Salário pífio é o que nós, docentes, sabemos desde que o mundo é mundo, mas e daí? Lutemos, corramos atrás, mas não massacremos nosso ofício porque de tolos enganáveis, não temos (e nunca tivemos) é nada...
Deixei para o final algo que tanto combato: a hipocrisia!
Por que? - pergunto eu- Por que cargas d'água a humanidade optou em ser demagoga com uma disfaçatez que me amedronta?
Caraca! UM DIA antes de uma comemoração profissional e vejo colegas reclamarem de seus ofícios e NO DIA, APENAS NO DIA os mesmos cretinos ressaltam a profissão como sendo a melhor do mundo!!!!
(Isso é na Farmácia, Magistério, e em todas elas!!!!)
Parece uma epidemia, EPIDEMIA!!!!
Você falou certo: é por todas as situações no País e talvez, pelo Mundo...
ABAIXO A HIPOCRISIA! - É o meu grito mais audível!
E sem hipocrisia alguma, amiga, lembrei, no dia 20 de janeiro, do feriado carioca: comemora-se no Rio, o dia do padroeiro São Sebastião...
Mas envio-lhe meus parabéns pela sua comemoração profissional. Gosto de sua consciência sem deslumbre, nem amargura.
Ao ser contra aos colegas hipócritas, você demonstrou mais amor à profissão que sequer, talvez, tenha parado para pensar...

Beijos, querida!
Grande post! Adorei de verdade!!!!

Mary:)

Anônimo said...

Láaaaris!!

Que ótima escritora que és! Adorei este post! Parabéns! Concordo 100%!

Os nossos políticos nada mais são do que o reflexo do que somos como sociedade... começa com furar fila no super (ou usar a dos idosos), passar no sinal vermelho.. e assim vai!

Bjs
Cassy Jones!

Post anônimo pois não tenho conta em nenhuma rede para não me acharem nem dar minhas infos de graça hehehe (o sistema é !@#$!@#$!)

Van said...

Oi Larissa

Um desabafo coerente e justo este seu.

A questão é de maturidade, piorando enormemente a natureza humana volúvel, influenciável e oportunista ainda se tem a imaturidade nacional, o despreparo para a vida faz o povo rir de coisa séria, fazer piada com seus maiores dramas e levar a sério suas maiores piadas. Fazem piada com os atos políticos que nos espoliam, riem como se estivessem rindo do outro e não de sua própria tragédia e falam sério sobre Luisa do Canadá e BBB,
Para mim isso é imaturidade, apedrejar a profissão quando é conveniente, enaltece-la a seguir porque também é conveniente é uma imaturidade, uma demonstração de falta de rumo, de se saber o que quer e para onde se está indo.

Beijos!

Larissa Bohnenberger said...

Cassy Jones!!!!

Que surpresa inenarravelmente prazerosa te ver por aqui! :-)

Tens toda razão no teu comentário. Não podemos nunca esquecer que nossos governantes saíram do povo. Esse povo que adora levar uma vantagem e conseguir as coisas no estilo 'jeitinho brasileiro' de ser. Se fosse foda era bom!

Cassy, tô com saudade de ti! Nunca mais nos falamos... E fiquei muito feliz de encontrar um comentário teu no meu humilde bloguinho...

Super beijo, Láris!

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